'The Riverbank': O thriller erótico brasileiro que chega a Locarno com peso político e estético
O novo filme de Matheus Farias e Enock Carvalho estreia em Locarno 2026 e redefine o cinema brasileiro com narrativa entre desejo, poder e magia no Recife.
O manguezal como palco: ‘The Riverbank’ chega a Locarno com um thriller que desafia gêneros e poder
Um filme brasileiro explode em Locarno com vendas mundiais antes mesmo da estreia
Em um momento em que o cinema brasileiro vive um dos seus períodos mais dinâmicos da história, com Recife consolidando-se como um polo criativo de peso internacional, um novo filme promete redefinir os limites do que se espera do cinema nacional. The Riverbank (A Margem do Rio), estreia em longa-metragem dos diretores Matheus Farias e Enock Carvalho, acaba de ser adquirido pela Premium Films e MPM Premium para distribuição internacional. A notícia, revelada com exclusividade pela Variety, antecede sua estreia mundial na Competição Oficial do Festival de Locarno 2026 (5 a 15 de agosto), onde promete causar alvoroço — não apenas pela estética ousada, mas pela carga política e social que carrega.
Produzido por um consórcio de produtoras brasileiras e alemãs (Gatopardo Filmes, Moçambique Audiovisual, Vitrine Filmes e Tama Filmproduktion), o filme já nasce com o respaldo de instituições como Projeto Paradiso, World Cinema Fund e Ancine. Mas o que realmente chama a atenção é como The Riverbank transcende os rótulos de ‘cinema LGBTQ+’ ou ‘thriller erótico’ para se tornar um manifesto visual sobre desejo, fé e as estruturas invisíveis de poder que moldam a sociedade brasileira contemporânea.
De Recife para o mundo: a ascensão de uma nova voz autoral
Farias e Carvalho não são nomes desconhecidos. Em 2021, seu curta-metragem Inabitável ganhou destaque no Sundance Film Festival, chamando a atenção para a cena cinematográfica do Nordeste brasileiro. Mas foi em 2025 que o dueto alcançou projeção global: Matheus Farias foi agraciado com o Prêmio Platino de Melhor Montagem por seu trabalho em O Agente Invisível, de Kleber Mendonça Filho — filme que, por sua vez, colocou Recife no mapa do cinema mundial como um hub de narrativas originais e politicamente engajadas.
The Riverbank não apenas herda esse legado, como o expande. Ambientado nas manguezais noturnos de Recife, o filme acompanha Izaquiel (Caique Copque), um faxineiro que busca refúgio na intimidade com Jeremias (Ítalo Martins), um pescador misterioso. O que começa como uma história de desejo se transforma em uma jornada de autodescoberta, onde realidade e mito se confundem em um cenário onde ‘predador e presa’ são conceitos fluidos.
O elenco que une Recife ao mainstream: uma rede de talentos locais
A produção reuniu nomes já consagrados no cinema brasileiro, muitos deles também presentes em O Agente Invisível: Robério Diógenes, Rubens Santos e Carlos Francisco dão vida a personagens que habitam as sombras de poder da cidade. Segundo Farias, a escolha de atores locais não foi mera coincidência, mas uma decisão política. "Quando Kleber Mendonça Filho filmou aqui, mostrou ao mundo que Recife tem uma identidade cinematográfica forte. Nós queríamos continuar essa conversa, mas de uma forma mais íntima, mais visceral", afirmou em entrevista à Variety.
Gênero como linguagem: entre o noir tropical e o realismo mágico
Um dos aspectos mais fascinantes de The Riverbank é como ele desmonta e remonta gêneros cinematográficos em tempo real. O filme navega entre:
- Thriller erótico: com cenas de tensão sexual que beiram o insuportável;
- Noir tropical: com a estética sombria e úmida dos manguezais como personagem central;
- Realismo mágico: onde mitos regionais (como a lenda do Boi-Tatá ou entidades aquáticas) se entrelaçam à narrativa;
- Crítica social: expondo os laços entre igrejas evangélicas, política e violência institucional no Brasil.
Jean-Charles Mille, diretor-geral da Premium Films, não esconde o entusiasmo: "Predador e presa, desejo e perigo, o inconsciente e as políticas de classe tornam-se inseparáveis em um thriller carregado de tensão erótica e suspense. É um cinema de autor que desafia as fronteiras entre gêneros e que, acima de tudo, emociona".
Por que isso importa
*The Riverbank* não é apenas um filme sobre dois homens em busca de prazer em um cenário hostil. É um espelho da sociedade brasileira atual, onde **a fé se tornou arma política**, o desejo é criminalizado e a magia realista é a única linguagem que consegue traduzir a complexidade de viver em um território onde a realidade muitas vezes parece surreal. > > Os diretores Matheus Farias e Enock Carvalho, ambos ex-membros de igrejas evangélicas, transformaram suas experiências pessoais em uma crítica feroz ao bolsonarismo e à instrumentalização da religião pelo poder. Não é exagero dizer que este filme é uma resposta estética a anos de perseguição a artistas e minorias no Brasil. > > — **Análise editorial**
A política por trás do prazer: evangélicos, Bolsonaro e as cicatrizes de uma nação
Farias e Carvalho não escondem as influências políticas do filme. Em depoimento à imprensa, Farias foi categórico: "Vivemos anos terríveis no Brasil por causa do ‘bolsonarismo’. Um projeto político autoritário que uniu perseguição a minorias, artistas e uma campanha pró-armas. As maiores igrejas evangélicas do país foram cúmplices disso, e nós, como homens gays, sentimos na pele as consequências."
O diretor revela ainda que passou 20 anos dentro de uma igreja evangélica, o que torna sua crítica ainda mais pessoal. "Quando você sai de uma instituição que moldou sua relação com o corpo e o desejo, as marcas não desaparecem. The Riverbank nasce dessa ferida."
Com eleições presidenciais no Brasil previstas para outubro de 2026, o timing não poderia ser mais oportuno. O filme não apenas questiona o papel das igrejas na política, como também expõe como a fé pode ser usada como ferramenta de opressão — um tema que ressoa globalmente, especialmente em países onde o conservadorismo religioso ganha força.
O manguezal como metáfora: entre a sobrevivência e a resistência
Os manguezais de Recife não são apenas um cenário exótico. São um personagem vivo, um labirinto natural onde a luz da lua se mistura à água salgada, criando um ambiente de beleza hipnótica e perigo constante. Carvalho explica: "Na vida real, o manguezal é um lugar que a gente conhece todos os dias. É parte do território, mas também é um espaço de não-realismo. Nele, desejo, medo e encantamento estão sempre próximos. É daí que surge o thriller, o crime e a erótica do filme."
Essa escolha estética não é mera coincidência. Segundo críticos como os de Cahiers du Cinéma, os manguezais brasileiros são símbolos de resiliência — ecossistemas que resistem à poluição, ao desmatamento e à urbanização predatória. No contexto de The Riverbank, eles representam também a resistência cultural de uma região que, apesar de marginalizada, produz cinema de alcance global.
O que os fãs e críticos devem esperar
Para os entusiastas do cinema brasileiro, The Riverbank promete ser um marco. Entre os pontos a observar:
✅ Estética inovadora: A direção de fotografia, assinada por Diego Garcia, usa luzes naturais e sombras para criar uma atmosfera quase onírica, lembrando os trabalhos de Mati Diop (Atlantics) e Ali Abbasi (Border).
✅ Narrativa não-linear: O filme joga com a noção de tempo, onde passado, presente e mitos se entrelaçam.
✅ Som e trilha sonora: Composta por Bernardo Uzêda, a música usa elementos de maracatu, coco de roda e sons eletrônicos, criando uma trilha que é ao mesmo tempo ancestral e moderna.
✅ Atuação visceral: Caique Copque e Ítalo Martins entregam performances carregadas de tensão física e emocional, dignas de prêmios.
Rumores e expectativas: o que pode vir depois de Locarno?
- Vendas internacionais: Com a aquisição pela Premium Films e MPM Premium, espera-se que o filme seja distribuído em Europa, América do Norte e Ásia ainda em 2026.
- Prêmios: Alguns apostam que The Riverbank pode seguir os passos de O Agente Invisível, levando indicações a festivais como Berlim, San Sebastián ou até mesmo o Oscar 2027.
- Impacto cultural: Se o filme for bem recebido, pode impulsionar novas produções nordestinas, especialmente aquelas que exploram temas LGBTQ+ e políticas de identidade.
O legado de Recife: como um polo cinematográfico brasileiro conquistou o mundo
Não é exagero dizer que Recife vive um renascimento cinematográfico. Desde os anos 2000, diretores como Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles e Heitor Dhalia vêm construindo uma identidade visual única para o cinema brasileiro, afastando-se dos clichês do Rio ou São Paulo.
The Riverbank chega em um momento em que a cidade é palco de produções internacionais e foco de atenção de festivais globais. Segundo Farias, esse reconhecimento é fruto de décadas de trabalho: "Não começou com um único filme. Recife tem uma tradição cinematográfica forte, construída por muitos profissionais ao longo dos anos. Nós apenas estamos aqui para continuar essa história."
O que vem agora? Roteiro e próximos passos para os fãs
- Locarno 2026 (5-15 de agosto): Estreia na Competição Oficial. Fique de olho nas críticas internacionais.
- Vendas internacionais: A partir de setembro, o filme deve começar a ser exibido em cinemas europeus e plataformas.
- Prêmios nacionais: Se entrar na seletiva do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2027, pode ser uma das apostas.
- Banda sonora: A trilha de Bernardo Uzêda deve ganhar lançamento digital, aproveitando o hype.
- Impacto político: O filme pode se tornar um símbolo da resistência cultural brasileira, especialmente em ano eleitoral.
Conclusão: um marco que transcende o cinema
The Riverbank não é apenas mais um filme brasileiro a desembarcar em Locarno. É uma declaração de intenções de uma nova geração de cineastas que se recusam a ser rotulados. É um grito político contra a instrumentalização da fé. É uma viagem sensorial pelas águas escuras dos manguezais, onde cada reflexo na água pode ser um espelho — ou uma armadilha.
Para os fãs do cinema brasileiro, é uma obra obrigatória. Para os amantes do thrill erótico, é uma aula de como usar a tensão sexual como crítica social. Para os estudiosos do realismo mágico, é uma nova camada a ser explorada.
E para o Brasil? É mais um lembrete de que, mesmo em tempos sombrios, a arte — e a resistência — sempre encontram um caminho.
Fique de olho: este é um filme que promete deixar marcas.

Fonte original: variety.com