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O silêncio que destrói: Como 'A Common Story' se tornou o drama mais doloroso e real do ano

Estreia de Anna Foglietta na direção, longa italiano com Alba Rohrwacher brilha em Veneza e Toronto ao retratar o colapso de um casamento pelo silêncio.

O vazio do ninho e a dor do invisível — imagem relacionada
O vazio do ninho e a dor do invisível — imagem relacionada
A escolha pelo silêncio em vez dos gritos histriônicos — imagem relacionada
A escolha pelo silêncio em vez dos gritos histriônicos — imagem relacionada
Atuações que definem carreiras: Alba Rohrwacher e Guido Caprino — imagem relacionada
Atuações que definem carreiras: Alba Rohrwacher e Guido Caprino — imagem relacionada
O que esperar e o impacto para o mercado cinematográfico — imagem relacionada
O que esperar e o impacto para o mercado cinematográfico — imagem relacionada

O Festival de Veneza acaba de consagrar uma das obras mais delicadas e devastadoras do ano. Na prestigiada mostra Orizzonti, a estreia na direção da renomada atriz italiana Anna Foglietta com o longa A Common Story (Una Storia) capturou a atenção da crítica internacional e desponta como um dos grandes destaques também no Festival de Toronto (na mostra Discovery). Longe dos clichês de discussões aos berros que costumam inundar os dramas matrimoniais de Hollywood, o filme brilha justamente por aquilo que deixa de ser dito, entregando um retrato doloroso sobre a solidão acompanhada e a incapacidade de comunicar a própria dor.

Estrelado por Alba Rohrwacher e Guido Caprino, o longa acompanha a derrocada silenciosa de um casamento operário diante do impacto do "ninho vazio". Quando a única filha do casal, Irene (Ksenia Borzak), parte para a faculdade, Erika (Rohrwacher) e Mauro (Caprino) são confrontados não apenas com o silêncio de casa, mas com o abismo existencial que se instalou entre eles ao longo de décadas de rotina mecânica.

O vazio do ninho e a dor do invisível

O vazio do ninho e a dor do invisível — imagem relacionada
O vazio do ninho e a dor do invisível — imagem relacionada

A narrativa de A Common Story se ancora em uma realidade profundamente humana e pouco explorada com tamanha sutileza no cinema contemporâneo. Erika trabalha como operadora de caixa em um supermercado e Mauro na construção civil com o pai. Suas vidas sempre foram pautadas pela utilidade prática: acordar cedo, preparar o café, cuidar da casa, trabalhar e, acima de tudo, criar a filha. Com a partida de Irene, Erika perde seu principal pilar de identidade. Aos 45 anos, ela se vê sem um propósito claro e sem as ferramentas emocionais ou intelectuais para processar o que sente.

O roteiro, coescrito por Foglietta, Tania Pedroni e Matteo Ferri, aborda com maestria a depressão sob a ótica de quem não tem acesso à linguagem da saúde mental. Para Erika e Mauro, termos como "crise existencial" ou "terapia de casal" parecem saídos de outro planeta. Sem o vocabulário necessário para expressar sua angústia, Erika começa a desmoronar internamente, enquanto Mauro assiste à deterioração da esposa com uma mistura de perplexidade e impotência masculina de quem foi ensinado apenas a "consertar coisas físicas", mas não sentimentos.

**Por que isso importa** > *A Common Story* joga luz sobre uma parcela da sociedade frequentemente ignorada por dramas psicológicos: a classe trabalhadora que sofre com crises de saúde mental, mas carece de repertório social e educacional para nomear ou tratar sua dor. Ao focar no silêncio em vez do confronto verbal direto, a diretora Anna Foglietta entrega uma crônica social urgente sobre a solidão na era moderna, provando que a falta de comunicação pode ser tão letal para um relacionamento quanto a traição ou a violência física.

A escolha pelo silêncio em vez dos gritos histriônicos

A escolha pelo silêncio em vez dos gritos histriônicos — imagem relacionada
A escolha pelo silêncio em vez dos gritos histriônicos — imagem relacionada

Um dos maiores méritos de Anna Foglietta em sua estreia na direção é a compreensão profunda do espaço cênico e do tempo dramático. Vinda de uma sólida carreira como atriz, Foglietta sabe que o silêncio e as pausas costumam carregar muito mais peso dramático do que monólogos inflamados. Em vez de apelar para o melodrama fácil de pratos quebrados e acusações mútuas, a diretora constrói a tensão nos pequenos detalhes: o plano fixo de uma sala vazia, o olhar perdido de Erika diante de um comercial de televisão, ou a distância física que se estabelece entre o casal mesmo quando dividem a mesma cama.

A direção de fotografia de Andrea Benjamin Manenti é cirúrgica ao criar barreiras visuais dentro do enquadramento. Muitas vezes, vemos o casal através de janelas, frestas de portas ou separados por elementos da arquitetura doméstica. Essa escolha estética reforça a sensação de isolamento de ambos. Quando o filme finalmente se permite uma cena de confronto mais ruidosa — dentro de um carro estacionado —, a câmera se aproxima de forma quase invasiva, tornando o colapso emocional de Erika e Mauro ainda mais cru e doloroso para o espectador.

Atuações que definem carreiras: Alba Rohrwacher e Guido Caprino

Atuações que definem carreiras: Alba Rohrwacher e Guido Caprino — imagem relacionada
Atuações que definem carreiras: Alba Rohrwacher e Guido Caprino — imagem relacionada

Não há como falar do impacto de A Common Story sem exaltar o trabalho monumental de seus protagonistas. Alba Rohrwacher, já consagrada como uma das maiores atrizes do cinema europeu moderno, entrega aqui uma de suas performances mais vulneráveis e complexas. Erika não é uma personagem que busca simpatia fácil; sua dor se manifesta em apatia, pequenas obsessões domésticas e momentos de quase catatonia. Rohrwacher consegue transmitir todo esse turbilhão interno apenas com o semicerrar dos olhos ou a hesitação ao telefone com uma atendente de telemarketing.

Guido Caprino, por sua vez, oferece o contraponto perfeito. Seu Mauro é um homem rústico, moldado pelo trabalho pesado e pela figura castradora de seu próprio pai (vivido por Elio De Capitani). Caprino evita o clichê do marido insensível ou agressivo; ele interpreta Mauro com uma doçura desajeitada, um homem que ama profundamente a esposa, mas simplesmente não sabe como alcançá-la ou salvá-la de si mesma. A química dolorosa entre os dois atores sustenta o filme e injeta uma dose de humanidade que impede a obra de se tornar um exercício puramente niilista.

O que esperar e o impacto para o mercado cinematográfico

O que esperar e o impacto para o mercado cinematográfico — imagem relacionada
O que esperar e o impacto para o mercado cinematográfico — imagem relacionada

Após passar pelas telas de Veneza e Toronto, A Common Story (produzido pela HT Film, Indigo Film e Rai Cinema) já começa a desenhar sua trajetória no mercado internacional de distribuição através da True Colours. O filme surge como um forte candidato a premiações europeias e deve figurar nas listas de melhores do ano de muitos críticos de cinema.

Para os cinéfilos e fãs do cinema italiano contemporâneo, a obra representa o surgimento de uma nova e potente voz na direção. Anna Foglietta demonstra uma maturidade artística rara para um primeiro trabalho por trás das câmeras, consolidando-se como um nome a ser acompanhado de perto nos próximos anos. Mais do que um retrato de um casamento em ruínas, o longa é um lembrete tocante de que o amor, por mais forte que seja, às vezes precisa de palavras para sobreviver — e que aprender a falar sobre nossa própria dor é, antes de tudo, um ato de sobrevivência.

Fonte original: variety.com

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