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O mestre do cinema lento não para: Lav Diaz detalha épico em Veneza e anuncia novos filmes sobre falsos profetas e revolução filipina

Lav Diaz brilha no Festival de Veneza com 'Let Us Through, Dear Ancestors' e revela seus próximos projetos ousados para o cinema.

O Retorno a Veneza e a Anatomia da Colonização — imagem relacionada
O Retorno a Veneza e a Anatomia da Colonização — imagem relacionada
A Brutalidade Oculta sob a Fé — imagem relacionada
A Brutalidade Oculta sob a Fé — imagem relacionada
Elenco de Peso e o Cenário de Cura — imagem relacionada
Elenco de Peso e o Cenário de Cura — imagem relacionada
Os Próximos Passos: Falsos Profetas e Revolução — imagem relacionada
Os Próximos Passos: Falsos Profetas e Revolução — imagem relacionada

O Festival de Cinema de Veneza sempre foi um porto seguro para o cinema de autor mais radical, e em 2026 não é diferente. O aclamado cineasta filipino Lav Diaz, vencedor do Leão de Ouro em 2016 por A Mulher que Se Foi, está de volta ao Lido com seu mais recente trabalho, Let Us Through, Dear Ancestors (Makikiraan Po). Mas o mestre do 'slow cinema' não se limita a olhar para o presente: em entrevista exclusiva à Variety durante o festival, Diaz revelou que já está desenvolvendo dois novos projetos ambiciosos — um filme focado em falsos profetas e ideologias enganosas, e uma aguardada adaptação cinematográfica de Noli Me Tangere, o romance histórico de José Rizal que acendeu a faísca da Revolução Filipina de 1896.

Aos 67 anos e recuperado de graves problemas de saúde, Diaz demonstra que seu compromisso com a verdade histórica e com a desconstrução do passado colonial de seu país continua mais afiado do que nunca.

O Retorno a Veneza e a Anatomia da Colonização

O Retorno a Veneza e a Anatomia da Colonização — imagem relacionada
O Retorno a Veneza e a Anatomia da Colonização — imagem relacionada

Let Us Through, Dear Ancestors marca a terceira incursão de Lav Diaz em períodos históricos específicos das Filipinas. Após abordar a revolução de 1896 em A Lullaby to the Sorrowful Mystery e a figura do navegador português em Magellan (que estreou no Festival de Cannes em 2025), o diretor agora recua ainda mais no tempo. O novo longa se passa entre o final do século XVI e o início do século XVII, período em que as forças espanholas lideradas por Miguel López de Legazpi consolidaram o domínio colonial no arquipélago.

A trama foca na resistência do líder nativo Rajah Tupas e, principalmente, no custo humano por trás da construção das imponentes igrejas católicas coloniais que ainda hoje dominam a paisagem filipina. Para Diaz, esses monumentos históricos não são apenas símbolos de fé, mas sim marcos de uma violência sistemática.

Sob o domínio espanhol, homens malaios aptos — desde adolescentes a adultos — eram submetidos a 40 dias de trabalho forçado anual não remunerado (o sistema conhecido historicamente como polo y servicios) para erguer estradas, pontes, fortes e templos religiosos. Estima-se que cerca de 30% da população masculina local tenha perecido sob esse regime brutal.

A Brutalidade Oculta sob a Fé

A Brutalidade Oculta sob a Fé — imagem relacionada
A Brutalidade Oculta sob a Fé — imagem relacionada

Em suas declarações, Diaz não poupa críticas às instituições religiosas e à forma como a fé foi instrumentalizada para subjugar seu povo. 'Os filipinos esquecidos precisam aprender, precisam saber, precisam entender que essas estruturas foram construídas com trabalho forçado', afirmou o diretor. 'Não surgiram por manifestações cósmicas; é o sangue, o suor, as lágrimas e as mortes de nossos ancestrais.'

O cineasta vai além e analisa o impacto psicológico e espiritual dessa colonização, apontando a religião como uma das formas mais persistentes de dominação. Para ele, a imposição da fé católica obliterou a racionalidade e estabeleceu uma 'subjugação eterna' para os mais vulneráveis, um padrão que ele enxerga se repetir em conflitos geopolíticos contemporâneos ao redor do globo, de Gaza à Ucrânia.

O próprio título do filme, Makikiraan Po, é uma expressão em tagalo usada ainda hoje por filipinos ao passarem por locais que acreditam ser habitados por espíritos ancestrais. É um pedido de licença que, segundo Diaz, representa uma conexão direta com o passado pré-colonial e puramente malaio.

**Por que isso importa** > Lav Diaz é uma das vozes mais intransigentes do cinema contemporâneo. Ao utilizar a tela grande para escavar os traumas históricos das Filipinas, ele desafia a amnésia coletiva imposta por séculos de colonização e regimes autoritários. Suas obras não são apenas entretenimento; são documentos de resistência política e estética que forçam o espectador a confrontar as bases violentas da modernidade e da estrutura de classes atual, cujas origens ele traça diretamente até o sistema colonial da *encomienda*.

Elenco de Peso e o Cenário de Cura

Elenco de Peso e o Cenário de Cura — imagem relacionada
Elenco de Peso e o Cenário de Cura — imagem relacionada

Apesar de seus impressionantes 151 minutos — uma duração considerada curta para os padrões de Diaz, cujos filmes frequentemente ultrapassam as cinco ou seis horas —, Let Us Through, Dear Ancestors mantém o rigor estético habitual do diretor. Filmado em um deslumbrante preto e branco, o longa foi rodado em Sampaloc, na província de Quezon, um local que possui um significado quase místico para o cineasta.

Diaz revelou que a região foi fundamental para sua recuperação física após enfrentar graves problemas de saúde. Ele sofreu com o colapso de seu pulmão esquerdo devido à tuberculose logo após a edição de Magellan, e posteriormente enfrentou asma severa e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). 'O espírito do lugar fornece os melhores atributos que preciso em meus filmes sobre questões de verdade, visão e transcendência', declarou.

No elenco, o grande destaque é a presença da aclamada cineasta e atriz Isabel Sandoval (Señorita, Lingua Franca), que interpreta a Babaylan — uma curandeira e líder espiritual tradicional malaia. A personagem serve como a ponte viva entre os filipinos contemporâneos e sua herança cultural pré-hispânica. O filme conta ainda com as atuações de colaboradores de longa data de Diaz, como Ronnie Lazaro e Yul Servo.

Os Próximos Passos: Falsos Profetas e Revolução

Os Próximos Passos: Falsos Profetas e Revolução — imagem relacionada
Os Próximos Passos: Falsos Profetas e Revolução — imagem relacionada

A passagem por Veneza serve também como rampa de lançamento para o futuro de Diaz. O diretor confirmou que já trabalha ativamente em um longa-metragem focado em 'falsos profetas e ideologias enganosas', um tema extremamente atual em tempos de desinformação em massa e ascensão de extremismos políticos.

Além disso, ele prepara uma adaptação de Noli Me Tangere (Não Me Toques), obra-prima literária de José Rizal publicada em 1887. O livro, que expôs a corrupção do clero espanhol e do governo colonial nas Filipinas, é considerado o catalisador do nacionalismo filipino e da revolução de 1896. Levar essa obra aos cinemas sob a ótica radical de Diaz promete ser um dos eventos cinematográficos mais importantes da década.

Para Diaz, o compromisso com a verdade é inegociável. 'O cinema deve ter a responsabilidade de se comprometer com a verdade. Não deve haver concessões nessa questão, dada a condição atual do mundo. A alma do cinema é a verdade', concluiu.

Let Us Through, Dear Ancestors conta com produção da C'est Lovi Productions, Epicmedia Productions e Sine Olivia Pilipinas, com as vendas internacionais sob a responsabilidade da Heretic. O filme segue sua trajetória por festivais internacionais antes de buscar distribuição comercial e plataformas de streaming.

Fonte original: variety.com

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