O futuro das telas: Declaração Lumière dita novas regras globais contra a 'ditadura dos algoritmos' e IA no cinema
Líderes globais do audiovisual se unem na França para assinar manifesto histórico que defende a soberania humana e a diversidade contra o domínio das big techs.



A batalha pela nossa atenção nas telas do cinema e do streaming acaba de ganhar um capítulo histórico e altamente politizado. Em um movimento sem precedentes para proteger a integridade artística da sétima arte, líderes governamentais, criadores, festivais e gigantes da indústria audiovisual de todo o mundo assinaram a Declaração Lumière sobre o Futuro do Cinema e da Imagem em Movimento. O documento estabelece 15 princípios fundamentais para ditar a governança global do setor, batendo de frente com a lógica puramente comercial das plataformas digitais e o avanço descontrolado da inteligência artificial.
O encontro ocorreu no icônico vilarejo de Saint-Paul-de-Vence, na França, durante o Lumière Summit. Co-presidido pela França e pela República da Coreia (Coreia do Sul) — duas das maiores potências de cinema autoral e de massa do planeta —, o evento marca um esforço multilateral inédito, realizado exatamente 200 anos após a primeira fotografia e 130 anos após a primeira exibição pública do cinematógrafo pelos irmãos Lumière.
A revolta contra o sequestro da atenção

O ponto central da Declaração Lumière é um ataque direto ao modelo de negócios das redes sociais e das plataformas de streaming baseadas em algoritmos de recomendação agressivos. O manifesto afirma categoricamente que as imagens em movimento existem para muito mais do que simplesmente reter usuários em uma tela.
Em uma das frases mais contundentes do documento, os signatários declaram: "A atenção do público não é um recurso a ser capturado, mas uma relação de confiança a ser honrada".
Com isso, o ecossistema global do cinema tenta resgatar a ideia de que o audiovisual é um bem comum, um veículo de memória, emoção, emancipação individual e transformação coletiva, e não apenas uma commodity métrica para vender anúncios ou assinaturas.
### Por que isso importa > A Declaração Lumière representa o primeiro grande esforço diplomático global para criar uma governança multilateral do audiovisual na era digital. Ao unir forças como a França e a Coreia do Sul, a indústria tenta erguer uma barreira de proteção para garantir que o cinema independente, a diversidade cultural e a soberania dos criadores humanos não sejam engolidos pelo monopólio tecnológico do Vale do Silício e pela distribuição automatizada.
Inteligência Artificial Humano-Cêntrica e o perigo da "IA Agêntica"
Como não poderia deixar de ser, a tecnologia e a inteligência artificial generativa ocuparam um espaço crucial nos debates de Saint-Paul-de-Vence. O presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, que esteve presente no painel de abertura, defendeu ativamente uma abordagem de IA focada no ser humano e o fortalecimento do cinema independente.
A declaração aborda o tema em três de seus 15 princípios. O texto reconhece que a IA pode, sim, atuar como uma ferramenta de apoio à criatividade, inovação e circulação de obras, desde que a criação humana permaneça no coração e na fundação de todo projeto.
Além disso, o documento acende um alerta vermelho para um conceito que começa a assombrar os distribuidores: a IA agêntica (ou agentic AI). Trata-se do risco iminente de entrarmos em um cenário onde o acesso do espectador às obras seja totalmente mediado por agentes virtuais automatizados, que decidiriam o que o usuário deve ou não assistir, eliminando a curadoria humana e a descoberta orgânica de novos filmes.
Diversidade como motor econômico, não obstáculo

Outro pilar forte do manifesto é a sustentabilidade financeira do setor através da pluralidade. Longe de adotar um tom puramente romântico, a Declaração Lumière faz uma defesa pragmática e econômica da diversidade de produções.
Segundo o texto, a variedade de obras — abrangendo diferentes orçamentos, idiomas, gêneros, formatos e origens geográficas — não é um limitador para a competitividade das empresas, mas sim a base de sua sustentabilidade. O documento incentiva a prática de coproduções internacionais como forma de mitigar riscos financeiros e integrar mercados emergentes aos circuitos globais.
Os signatários também cobraram responsabilidade das distribuidoras e grandes players que lucram com a exploração de catálogos antigos, afirmando que essas empresas têm o dever direto de reinvestir na nova geração de criadores. O texto ainda reforça que a liberdade de criação e a segurança no ambiente de trabalho (com foco especial na inclusão de mulheres e no combate a pressões políticas e sociais) são vitais para a sobrevivência da indústria.
O papel insubstituível das salas de cinema

Em tempos de lançamentos diretos no streaming, a declaração faz uma ode à experiência coletiva da sala escura. O manifesto pontua que as salas de cinema precisam da diversidade de filmes para sobreviver, assim como os filmes precisam das salas para cumprir seu papel social e cultural.
Nas palavras do documento, o cinema é definido como "um dos últimos lugares onde as telas individuais são desligadas e onde aprendemos, novamente, a assistir juntos".
Para além das salas, há também uma preocupação urgente com a preservação histórica. O texto alerta para o desgaste inexorável dos arquivos físicos de filmes ao redor do mundo e pede investimentos urgentes em restauração e digitalização para que a memória cultural de cada país não seja perdida.
Fato vs. Análise: O que muda na prática?

É importante diferenciar o caráter político do documento de sua aplicação prática.
* O Fato: A Declaração Lumière é um manifesto de princípios, uma carta de intenções diplomática sem poder de lei imediato. Ela funciona como um guia ético e uma base para futuras legislações nacionais e acordos de coprodução internacional. * A Análise: Embora não tenha caráter punitivo ou regulatório imediato, a assinatura deste documento por grandes líderes globais e instituições cria uma força de coalizão muito necessária. Ela dá munição jurídica e política para que países criem suas próprias cotas de tela contra o domínio das big techs e exijam transparência no uso de dados de treinamento de IA. É o início de uma resistência organizada.
Com a promessa dos signatários de se reunirem periodicamente para revisar o progresso dessas metas, o Lumière Summit de 2026 pode muito bem ser lembrado no futuro como o momento em que o cinema decidiu lutar ativamente para não se tornar apenas mais um 'conteúdo' descartável na timeline do espectador.
Fonte original: variety.com