O absurdo da vida: Como a maior lição de Calvin e Haroldo molda a filosofia dos games modernos
Analisamos a icônica tirinha de Bill Watterson que, 34 anos depois, ainda define nossa relação com o absurdo — e como isso impacta a narrativa dos videogames.




Se você já se pegou encarando a tela após o final de um jogo artisticamente complexo, questionando as escolhas do protagonista ou a própria natureza da realidade virtual, você experimentou o que os filósofos chamam de sentimento do absurdo. Essa busca por significado em meio ao caos não é exclusiva dos grandes roteiristas de jogos; ela foi perfeitamente sintetizada há exatos 34 anos por um garotinho de seis anos e seu tigre de pelúcia.
Em uma retrospectiva emocionante que resgata o legado de Bill Watterson, a obra-prima Calvin e Haroldo (Calvin and Hobbes) voltou a ser o centro das atenções ao nos lembrar de sua frase mais profunda sobre o sentido da vida. Mas o que uma tirinha dominical de 1992 tem a ver com a indústria de jogos atual? A resposta está na forma como ambos os meios nos ensinam a reagir ao incompreensível.
A busca de Bill Watterson pelo significado da existência

Durante os dez anos em que publicou Calvin e Haroldo, Bill Watterson frequentemente usava as escapadas de Calvin pela floresta para discutir existencialismo, mortalidade e a pequenez humana diante do cosmos. Muitas tirinhas tocavam em pontos sensíveis.
Quem não se lembra da trágica saga do bebê guaxinim em 1987? Ao encontrar o animal ferido que acaba falecendo no dia seguinte, Calvin confronta a dor da perda e questiona o próprio sentido da morte: "Qual é o ponto de colocá-lo aqui e levá-lo de volta tão cedo?". Embora dolorosa e poética, essa sequência foca mais na inevitabilidade do fim do que na arte de viver.
Outros momentos memoráveis envolviam o silêncio compartilhado, o valor de uma amizade verdadeira enquanto se come maçãs em uma manhã de outono, ou a contemplação das estrelas. No entanto, a resposta definitiva de Watterson sobre como navegar por este mundo de forma saudável viria em uma tirinha de domingo publicada em 1992.
O veredito do tigre: rir para não enlouquecer

Na tirinha em questão, Calvin questiona Haroldo sobre a evolução humana e nossa resposta fisiológica ao absurdo. Ele pergunta por que achamos graça em coisas sem sentido e como isso nos beneficia biologicamente. A resposta de Haroldo é de uma simplicidade avassaladora:
*"Acho que se não pudéssemos rir das coisas que não fazem sentido, não conseguiríamos reagir a muito da vida."*
Essa única frase resume o cerne do existencialismo moderno. A vida não vem com um manual de instruções e, frequentemente, nos apresenta situações bizarras, injustas ou completamente desprovidas de lógica. Rir — ou aceitar o absurdo — é a nossa única ferramenta de sobrevivência emocional.
**Por que isso importa** > > A filosofia do absurdo de *Calvin e Haroldo* é a fundação invisível das narrativas mais aclamadas dos videogames modernos. Em um meio onde o jogador tem agência, a capacidade de confrontar o sem-sentido e continuar jogando (ou vivendo) espelha diretamente a nossa própria jornada existencial. Do humor ácido ao drama interativo, os games se tornaram o palco perfeito para testarmos os limites dessa filosofia.
O elo entre o absurdo de Watterson e o design de jogos

Se transportarmos a sabedoria de Haroldo para o ecossistema dos games, percebemos que os melhores títulos da atualidade utilizam exatamente essa premissa para construir suas narrativas. Quando as regras do mundo real quebram, o jogo nos força a reagir.
Tomemos como exemplo The Stanley Parable. O jogo é uma ode completa ao absurdo corporativo e existencial. O jogador é colocado em um ciclo infinito de decisões sem sentido, guiado por um narrador onipresente. A única forma de apreciar a experiência é rir de sua total falta de lógica e abraçar a bizarrice das situações apresentadas. Stanley, assim como Calvin em seu carrinho de rolimã ladeira abaixo, está à mercê de forças que não compreende, e o humor é a única saída.
Outro exemplo monumental é Disco Elysium. O RPG coloca o jogador na pele de um detetive decadente que precisa resolver um crime enquanto lida com uma ressaca destrutiva e vozes conflitantes em sua própria cabeça. O jogo é trágico, político e profundamente melancólico, mas é sustentado por um humor absurdista refinado. Sem a capacidade de rir das situações patéticas em que o protagonista se enfia, a jornada seria intolerável. É a frase de Haroldo materializada em mecânicas de RPG.
Até mesmo em obras contemplativas de ficção científica, como Outer Wilds, a aceitação do absurdo do universo e da nossa própria insignificância diante do infinito é o motor que impulsiona a exploração. Nós morremos repetidamente em um ciclo de 22 minutos, mas continuamos assando marshmallows na fogueira e tocando música enquanto o sol explode. É a celebração da jornada, não do destino.
O impacto duradouro nos jogadores e desenvolvedores

Para os desenvolvedores de jogos, a obra de Bill Watterson serve como um lembrete constante de que a simplicidade visual pode carregar uma densidade filosófica brutal. Não são necessários gráficos fotorrealistas ou orçamentos bilionários para fazer o público parar e refletir sobre sua própria existência. Às vezes, basta um garoto, um tigre e uma descida de trenó na neve.
À medida que avançamos para uma era onde as narrativas interativas buscam cada vez mais maturidade emocional, revisitar clássicos da literatura e dos quadrinhos como Calvin e Haroldo torna-se essencial. A lição de 1992 continua tão fresca hoje quanto era há mais de três décadas.
O que podemos acompanhar a seguir é como os próximos lançamentos de estúdios independentes continuarão a beber dessa fonte literária, traduzindo o existencialismo lúdico de Watterson em novas mecânicas de gameplay que nos desafiam, nos confortam e, acima de tudo, nos fazem rir do absurdo de estarmos todos vivos.
Fonte original: www.polygon.com