Locarno 2026: África no centro das telas com magia, crítica social e novas vozes
Festival revela projetos africanos inovadores: de 'Chapa 100' a 'Cotton Queen', com magia realista e crítica pós-colonial em destaque.
Neve em Uganda, flores em Moçambique e algodão no Sudão: o cinema africano brilha em Locarno 2026
O Locarno Film Festival não é mais um festival que descobre a África — é um espaço onde a África reinventa as regras do cinema global. Na segunda edição do Open Doors — iniciativa que foca em projetos emergentes do continente fora do eixo tradicional (Magreb, Egito e África do Sul) — 2026 não apenas apresenta nomes promissores, mas redefine o que significa ser um cineasta africano hoje: mágico sem ser exótico, político sem ser panfletário, local sem ser limitado.
Entre uma nevasca impossível que cobre uma aldeia ugandense em A Vineyard for a Lobster (Talemwa Pius), uma história de amor entre vendedores de flores em Chapa 100 (Ique Langa) e uma crítica pós-colonial sobre algodão geneticamente modificado em Cotton Queen (Suzannah Mirghani), o festival prova que o cinema africano não precisa de rótulos para ser universal. Ele simplesmente é.
Três projetos que já são destaque (e por quê)
1. ‘Chapa 100’: Amor, morte e flores que brotam em Maputo
Fato: Chapa 100 é o segundo longa de Ique Langa, cineasta moçambicano radicado em Portugal, após The Prophet (2026, competição do IFF Rotterdam). O filme já conquistou o Atlas Workshops Development Award em 2025 e estreia em Locarno como um dos projetos mais aguardados.
Contexto: A trama acompanha Sitóe, 80 anos, vendedor de flores em Maputo, e Valentina, viúva e vendedora de legumes, cujas vidas se entrelaçam em uma relação que transcende a morte. Quando Sitóe morre atropelado ao tentar ajudar Valentina, flores começam a brotar dentro do minibus — um toque de magia realista que lembra Gabriel García Márquez, mas ancorado na cultura moçambicana.
Por que importa: Langa não está apenas contando uma história de amor. Ele está reclamando o espaço do cinema moçambicano para uma narrativa íntima e universal, sem cair nos clichês da pobreza ou da guerra. "É um amor pela Maputo que queremos mostrar, não a Maputo dos documentários de ONGs", declarou Langa à Variety.
Para acompanhar: The Prophet (2026) já está nos circuitos internacionais. Se Chapa 100 seguir o mesmo caminho, será uma vitória para o cinema lusófono contemporâneo.
2. ‘A Vineyard for a Lobster’: Neve em Uganda e o legado colonial
Fato: Estreia de Talemwa Pius, diretor ugandense formado na New York Film Academy, com um projeto que mistura realismo social e surrealismo para discutir autoridade e fé pós-colonial.
Contexto: A história começa com uma nevasca impossível em uma aldeia ugandense assolada pela seca, um símbolo das estruturas coloniais que ainda moldam a vida comunitária décadas após a independência. Pius explora como crenças e poder são herdados — ou contestados.
Análise: O título do filme já é uma provocação: uma vinha para uma lagosta? É uma metáfora da troca desigual imposta pelo colonialismo, onde recursos naturais são explorados para satisfazer demandas estrangeiras. Pius usa o gênero para reconquistar narrativas africanas, afastando-se do realismo puro para abraçar o absurdo e o simbólico.
Impacto para os fãs: Se o cinema africano quiser competir globalmente, precisa de histórias que sejam ao mesmo tempo locais e universais — e A Vineyard for a Lobster é um exemplo perfeito.
3. ‘Cotton Queen’: O algodão geneticamente modificado e a resistência sudanesa
Fato: Cotton Queen é o primeiro longa de ficção produzido e dirigido por uma mulher no Sudão (Suzannah Mirghani) e já coleciona prêmios: Melhor Filme na Semana da Crítica de Veneza, Melhor Filme no Festival de Salônica e Prêmio do Público em Doha.
Contexto: Nafisa, uma adolescente sudanesa criada com as histórias de sua avó sobre a resistência aos colonizadores britânicos, vê sua fazenda de algodão ameaçada por um empresário britânico que quer introduzir algodão geneticamente modificado. O filme é uma crítica direta ao neocolonialismo agrícola e como ele perpetua a dependência econômica.
**Por que isso importa: > "O colonialismo não terminou em 1960. Ele se transformou em uma nova forma de exploração, agora disfarçada de 'modernização'. Cotton Queen não é apenas sobre algodão — é sobre quem controla o futuro de um continente."
Co-produções que revolucionam: O filme é uma joint venture entre Alemanha, França, Palestina, Egito, Catar, Arábia Saudita e Sudão, financiado por 10 instituições e pelo Hubert Bals Fund do Festival de Roterdã. Prova que o cinema africano pode — e deve — ser global sem perder sua identidade.
As tendências que estão moldando o cinema africano em 2026
🔥 Mulheres cineastas dominando o jogo
Fato: O Open Doors 2026 tem uma maioria de mulheres nas seções de diretores, produtoras e no novo Open Doors Connect (que conecta produtoras da África, América Latina e Ásia).
Contexto: Projetos como Cotton Queen (Sudão), Hibiscus by the River (Nigéria) e My Father’s Kora (Senegal) mostram que as mulheres africanas não estão mais pedindo permissão para contar suas histórias — elas estão criando as estruturas para isso.
Análise: Suzsi Bankuti, chefe do Open Doors, resume: "A coorte de 2026 não faz concessões com autenticidade. Eles estão dizendo: ‘Esta é a nossa história, do jeito que queremos contá-la.’"
🌍 Co-produções não são mais exceção — são a regra
Fato: Os projetos em Locarno mostram que o cinema africano está ultrapassando fronteiras físicas e culturais.
- ‘Cotton Queen’ é um exemplo de co-produção Sul-Sul-Norte, envolvendo países como Alemanha, Catar e Arábia Saudita.
- Amadeu Alban (Brasil) está desenvolvendo dois projetos com a Nigéria: Trapped e La Pyramide, refletindo uma estratégia de construir pontes entre o Sul Global.
- ‘Hibiscus by the River’ (Nigéria) tem como parceiro a Nemsia Studios, que assinou um acordo com a Prime Video em 2022 — prova de que streamers estão apostando no cinema africano.
Impacto: Para diretores como Pius (A Vineyard for a Lobster), a co-produção é uma forma de acessar recursos técnicos e financeiros sem diluir a identidade local. "Gênero não é um truque comercial — é uma ferramenta para falar sobre nós mesmos", diz ele.
🎭 Gênero como ferramenta de reinvenção
Fato: De Crocodile (um documentário sobre crianças que filmam ficção científica com iPhones) a Diya (um thriller de crime sobrenatural), os projetos africanos em Locarno estão usando gêneros para desafiar expectativas.
- ‘Life On the Other Side of the Sun’ mistura elementos sobrenaturais com crítica social.
- ‘I Live in V.I’ (Nigéria) é uma sátira de classe social, mostrando como a nova elite nigeriana ignora as realidades da maioria.
**Por que isso importa: > "O cinema africano não precisa ser só sobre miséria ou guerra para ser relevante. Podemos ser thrillers, romances ou ficção científica — desde que sejam nossas histórias, nossos medos, nossas esperanças."
Contexto: David Ikeata, produtor da Vox Cinematic Films (Nigéria), explica que o foco em gêneros é uma resposta à demanda global por entretenimento acessível, mas também uma forma de os cineastas africanos mostrarem que podemos dominar qualquer formato.
O que vem por aí: além de Locarno
📅 Datas para marcar no calendário
- 8 de agosto (quinta-feira): Painel Facing Africa’s Challenges no Locarno Pro, discutindo novos modelos de financiamento para o cinema africano.
- Painel Open Doors Connect: Encontro para produtoras da África, América Latina e Ásia discutirem co-produções inovadoras — uma iniciativa que pode redefinir o cinema global.
🎬 Projetos para ficar de olho
- ‘Accept My Plea for Burial’ (Somália/Qatar): Um drama moral complexo sobre justiça tradicional em uma sociedade pós-guerra.
- ‘My Father’s Kora’ (Senegal): Um retrato íntimo sobre música e memória, do diretor Aymar Esse.
- ‘Hibiscus by the River’ (Nigéria): Um drama queer transcontinental, produzido pela Vox Cinematic Films e financiado pela Nemsia Studios.
🌟 O futuro do cinema africano
O Open Doors 2026 não é apenas um reflexo do presente — é um roteiro para o futuro. Com mais mulheres na direção, co-produções audaciosas e gêneros inovadores, a África está redefinindo o que significa ser um cineasta global. E o melhor? Eles nem precisam pedir permissão.
📌 Para os fãs: como acompanhar?
- Siga os diretores: Ique Langa (Chapa 100), Suzannah Mirghani (Cotton Queen) e Talemwa Pius (A Vineyard for a Lobster) têm perfis no LinkedIn, Instagram e Film Freeway para projetos futuros.
- Acompanhe as produtoras: Vox Cinematic Films (Nigéria), Strange Bird (Alemanha) e Maneki Films (França) estão sempre em busca de novos talentos.
- Participe de laboratórios: Programas como o Atlas Workshops e o Hubert Bals Fund oferecem desenvolvimento, financiamento e distribuição para projetos em estágio inicial.
Conclusão: O cinema africano não é o futuro — é o presente.
Em um mundo onde as telas são cada vez mais dominadas por blockbusters homogêneos, Locarno 2026 lembra que a verdadeira inovação vem de lugares inesperados. E a África, com suas histórias mágicas, críticas afiadas e vozes que não pedem licença para existir, está no comando da próxima revolução cinematográfica.
Que venham mais nevascas impossíveis, flores que brotam em minibus e algodões que resistem à engenharia genética.

Fonte original: variety.com