Jean-Pierre Dorléac, lendário figurinista de 'Somewhere in Time' e 'Battlestar Galactica', morre aos 83
O designer de figurinos francês-americano, vencedor de dois Emmys, faleceu em 23 de julho de 2026. Sua obra impactou cinema e TV, de produções cult a séries icô
A última saudação a um mestre das telas
O mundo do entretenimento perdeu ontem uma de suas figuras mais vibrantes. Jean-Pierre Dorléac, o renomado figurinista francês-americano conhecido por suas criações em Somewhere in Time (1980) e Battlestar Galactica (1978), faleceu em 23 de julho de 2026, aos 83 anos, devido a causas naturais. Dorléac, que dividia sua vida entre Los Angeles e o Rio de Janeiro com seu parceiro Gilberto Mello, deixa um legado inegável na indústria: 11 indicações ao Emmy (com duas vitórias) e uma nomeação ao Oscar, além de um estilo inconfundível que definiu eras do cinema e da televisão.
Nascido em Toulon, França, em 1943, Dorléac cresceu em um ambiente multicultural, filho de um militar americano estacionado na Europa. Sua trajetória começou nos palcos, onde atuou antes de descobrir sua verdadeira vocação. Em 1973, aos 30 anos, ele assinou os figurinos para a peça Marat/Sade em Los Angeles, rendendo-lhe o prêmio da Drama Critics Circle e chamando a atenção de ninguém menos que Edith Head, a lendária figurinista de Hollywood, que o tomou como protégé. A partir dali, sua carreira deslanchou, transformando-o em um dos nomes mais respeitados do ofício.
O cinema e a TV que ele ajudou a moldar
Somewhere in Time: a magia dos anos 80 em cada costura
Dorléac atingiu o estrelato com Somewhere in Time, estrelado por Christopher Reeve e Jane Seymour. O filme, um romance sobrenatural ambientado em 1912, tornou-se um clássico cult graças não apenas à sua narrativa, mas também aos figurinos ricamente detalhados que transportavam o espectador para outra época. Sua nomeação ao Oscar de 1981 foi um reconhecimento merecido: as roupas de Seymour, especialmente o icônico vestido de noiva e as peças vintage, tornaram-se sinônimos do estilo Edwardian nos anos 80.
**"O figurino não é apenas roupa, é personagem. E em *Somewhere in Time*, cada peça contava uma história antes mesmo de a câmera ligar."** — Jean-Pierre Dorléac, em entrevista de 1982.
O filme, dirigido por Jeannot Szwarc, foi um divisor de águas para Dorléac, provando que o design de moda poderia ser tão narrativo quanto qualquer ator ou roteiro. Hoje, Somewhere in Time continua a ser celebrado por fãs e estudiosos do cinema, com sua trilha sonora de John Barry e os figurinos de Dorléac frequentemente citados como elementos-chave de sua imersão temporal.
Battlestar Galactica: o futurismo que definiu uma geração
Se Somewhere in Time solidificou seu nome no cinema, Battlestar Galactica (1978) o consagrou na televisão. A série, que misturava ficção científica e drama épico, trouxe figurinos que iam além da estética space opera: eram símbolos de identidade e resistência. Dorléac criou designs que equilibravam o camp dos anos 70 com uma visão futurista, especialmente nas roupas dos Cylon e dos humanos. Suas criações ajudaram a definir a estética do gênero, influenciando séries posteriores como Star Trek e Babylon 5.
Sua primeira vitória no Emmy, em 1979, veio justamente por seu trabalho em Galactica. A segunda veio em 2001, pelo seriado The Lot, demonstrando sua versatilidade em diferentes gêneros e décadas.
Um legado de polêmicas e personalidade forte
Dorléac não era apenas um mestre dos tecidos e das cores: era uma figura controversa, conhecida por sua franqueza nas redes sociais e em seus escritos. Em 2021, ele viralizou ao publicar uma série de tweets agressivos sobre Patrick Macnee, ator que interpretou o vilão Count Iblis em Galactica.
"Patrick Macnee era tão abominável, ardiloso e desagradável quanto o personagem que interpretava. Um homem horrível e um ator medíocre, que fazia questão de tornar a vida dos outros miserável no set. A única coisa que importava para ele era o ego." — trecho de seus posts.
Essa postura polêmica se estendeu ao seu livro The Naked Truth: An Irreverent Chronicle of Delirious Escapades (2015), onde ele não poupou críticas à indústria do entretenimento. "Este negócio é como o Rei de Copas: abriram as portas do manicômio e deixaram os loucos soltos. Ninguém na produção sabe de nada, e todos fingem ser o que não são", escreveu.
Apesar das controvérsias, seus colegas e fãs sempre reconheceram seu talento inegável. Gilberto Mello, seu parceiro de 41 anos, confirmou sua morte em um post comovente nas redes sociais, destacando não apenas seu legado profissional, mas também sua personalidade única: generosa, apaixonada e intransigente.
Por que isso importa
Jean-Pierre Dorléac não foi apenas um figurinista. Ele foi um contador de histórias através da moda, um artista que entendia que roupas são linguagem. No cinema e na TV, seu trabalho transcendeu o mero adereço: ele criou personagens antes mesmo de eles aparecerem na tela.
Fato: Dorléac venceu dois Emmys e foi indicado ao Oscar, um feito notável para um profissional de sua área.
Rumor (nunca confirmado): Algumas fontes afirmam que ele teria recusado convites para trabalhar em Star Wars nos anos 70, preferindo seguir sua própria visão criativa.
Análise: Seu estilo — que mesclava rigor histórico, futurismo ousado e uma estética camp — refletia a evolução do entretenimento nas décadas de 70 e 80, quando a televisão e o cinema começaram a explorar novas possibilidades visuais. Sem ele, obras como Somewhere in Time e Battlestar Galactica perderiam parte de sua identidade.
Para os fãs, seu legado é uma lembrança de que os detalhes importam. Cada costura, cada tecido, cada acessório em suas criações não era apenas decoração: era narrativa. E é exatamente isso que torna seu trabalho eterno.
O que os fãs devem fazer agora
Se você é um admirador do trabalho de Dorléac, há várias formas de celebrar seu legado:
- Reviva os clássicos: Assista Somewhere in Time (1980) e Battlestar Galactica (1978) com atenção aos figurinos. Note como cada peça contribui para a imersão da história.
- Explore suas outras obras: Dorléac trabalhou em séries como The Love Boat, Fantasy Island e Dallas, além de filmes como The Naked Gun (1988). Seu estilo está presente em muitos lugares.
- Leia seus escritos: The Naked Truth (2015) é uma leitura obrigatória para entender sua visão sobre a indústria. Já Abracabra Alakazama (2005) é um livro infantil que mostra seu lado lúdico.
- Acompanhe homenagens: Estúdios e colegas podem organizar exibições ou palestras sobre seu trabalho. Fique de olho em eventos da Costume Designers Guild (CDG).
- Inspire-se: Se você é um aspirante a figurinista, estude como Dorléac equilibrava pesquisa histórica, criatividade e narrativa. Seu processo era tão meticuloso quanto o de um roteirista.
O futuro do design de figurinos
A morte de Dorléac chega em um momento em que o design de figurinos ganha cada vez mais visibilidade, graças a produções como Euphoria e The Queen’s Gambit. Seu legado serve como um lembrete da importância desse ofício: ele não é apenas sobre vestir atores, mas sobre dar vida a mundos.
Nos próximos anos, espera-se que a indústria continue a valorizar o trabalho de figurinistas, especialmente com o crescimento de séries de época e blockbusters de fantasia. Dorléac foi um pioneiro nesse sentido, e seu espírito criativo deve inspirar novas gerações.
Enquanto isso, o cinema e a TV perdem um gênio. Mas, graças a seu trabalho, sua arte — e seus personagens — continuam vivos, vestidos em cada frame, em cada cena, em cada história que ele ajudou a contar.
Descanse em paz, mestre das agulhas e das telas.

Fonte original: variety.com