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'Ferine': O horror sofisticado que redefine a maternidade como besta primitiva

Estreia de Andrea Corsini mistura arte, terror e maternidade em uma fábula visceral sobre uma mulher que se torna um predador após sequestrar um recém-nascido.

‘Ferine’: O horror sofisticado que redefine a maternidade como besta primitiva

Um filme que chega para sacudir os limites do terror psicológico

O cinema de horror contemporâneo tem se debruçado cada vez mais sobre temas sociais urgentes, transformando o terror em espelho das nossas ansiedades coletivas. Em 2026, um filme italiano estreia para desafiar essa fronteira: ‘Ferine’, dirigido por Andrea Corsini, estreou internacionalmente no Fantasia Festival e já acende debates sobre maternidade, posse e a linha tênue entre o humano e o bestial. Com uma abordagem estilizada e narrativa fragmentada, a obra se posiciona como um thriller psicológico visceral, mas também como uma crítica feroz à idealização da maternidade na sociedade contemporânea.

Produzido por EDI Effetti Digitali Italiani em parceria com Filmaffair e OMDT, ‘Ferine’ conta com um elenco de peso — incluindo Carolyn Bracken (Oddity), Caroline Goodall (Jurassic Park), e a jovem Elisabetta Caccamo — e uma direção de arte que bebe tanto no brutalismo arquitetônico quanto no expressionismo gótico. Mas o que realmente importa não é apenas o como, e sim o porquê: por que um filme sobre uma mulher que sequestra um recém-nascido para se tornar, literalmente, uma fera?


O enredo: uma tragédia pessoal que vira pesadelo coletivo

A história acompanha Irina (Carolyn Bracken), uma mulher rica e aparentemente estável que retorna à Itália para o funeral de sua mãe. Após sofrer múltiplas perdas gestacionais, ela decide recorrer à barriga de aluguel para concretizar o sonho de ser mãe. Seu plano, no entanto, toma um rumo macabro quando sequestra o bebê de Anita (Uliana Kuzmina), uma jovem mãe em situação de vulnerabilidade, após um parto traumático.

O sequestro é apenas o começo. Durante a fuga, um acidente envolvendo um animal exótico — um jaguar sul-americano que escapou de um cativeiro — deixa Irina traumatizada. O que se segue é uma transformação física e psicológica: Irina desenvolve comportamentos predatórios, como se estivesse sendo possuída pela fera que quase a matou. Seu desejo de maternidade se converte em uma fome insaciável, tanto por carne quanto pela posse da criança que sequestrou.

O filme se divide entre o drama íntimo de Irina e a chegada de Dama (Caroline Goodall), uma mulher poderosa envolvida no tráfico ilegal de animais exóticos, que enxerga na fera de Irina não apenas uma ameaça, mas uma curiosidade valiosa. O confronto entre as duas se torna uma batalha de vontades, onde a maternidade, a posse e a sobrevivência se entrelaçam em um jogo de poder brutal.


O contexto: por que ‘Ferine’ importa agora?

**Por que isso importa:** > *‘Ferine’* chega em um momento em que o cinema de horror global está cada vez mais interessado em explorar a maternidade como um território de angústia e transformação. Filmes como *‘Rosemary’s Baby’* (1968) e *‘The Brood’* (1979) já haviam aberto essa discussão décadas atrás, mas a obra de Corsini atualiza o tema ao mesclar horror corporal com uma estética de arte contemporânea. Não se trata apenas de uma mulher que vira monstro — trata-se de uma crítica à pressão social sobre as mulheres para que sejam mães a qualquer custo, mesmo que isso signifique perder a humanidade.

O filme também se insere em uma onda recente de produções que usam o horror como metáfora para crises existenciais. Em 2025, títulos como ‘The Meat Puppet’ e ‘Hysteria’ já haviam explorado temas semelhantes, mas ‘Ferine’ se diferencia pela sua abordagem estilizada e pela recusa em oferecer respostas fáceis. Não há vilão claro, nem redenção óbvia — apenas a constatação de que, em um mundo onde a maternidade é idealizada como o auge da realização feminina, a linha entre o amor e a possessão pode ser tão fina quanto o pelo de um jaguar.

Fatos, rumores e análises

  • Fato: O filme estreou no Fantasia Festival em julho de 2026, com duração de 106 minutos. A produção é italiana, mas conta com diálogos em inglês e italiano.
  • Fato: Carolyn Bracken, que interpreta Irina, já havia trabalhado com Cory McCarthy em ‘Oddity’ (2024), um filme que também explorava temas de identidade e horror psicológico.
  • Rumor: Há especulações de que ‘Ferine’ poderia ser selecionado para o Festival de Veneza ou até mesmo para os prêmios do cinema italiano, como o David di Donatello, devido ao seu estilo visual e narrativa ambiciosa.
  • Análise: A escolha de uma fera como metáfora para a maternidade não é nova (vide ‘Cat People’ de 1942), mas Corsini atualiza o conceito ao apresentar a transformação como uma consequência direta do trauma e da pressão social. A fera não é apenas um monstro — é um espelho das frustrações de Irina.

A estética de ‘Ferine’: entre o art house e o body horror

Um dos aspectos mais discutidos do filme é a sua direção visual. Fabrizio La Palombara, responsável pela fotografia, utiliza enquadramentos simétricos e uma paleta de cores frias para criar uma sensação de isolamento e claustrofobia. A casa de Irina, um exemplar de arquitetura brutalista, parece tanto uma prisão quanto um santuário — um reflexo de sua psique fragmentada.

A trilha sonora de Pino Donaggio (conhecido por seus trabalhos em ‘Carrie’ e ‘The Howling’) adiciona uma camada de tensão quase insuportável, com temas que evocam tanto o terror clássico quanto a música contemporânea experimental. Já a direção de arte de Carlotta Desmann transforma o filme em uma espécie de galeria de arte sombria, onde cada objeto — desde os quadros de Irina até os utensílios de cozinha — parece carregado de simbolismo.

No entanto, nem tudo são flores. O roteiro, escrito por Corsini em parceria com Massimo Vavassori, é criticado por ser excessivamente abstrato em alguns momentos. Questões como o relacionamento de Irina e Rosa (Paola Lavini) ou sua conexão com a arte moderna são deixadas em aberto, o que pode frustrar espectadores que buscam respostas claras. Além disso, há momentos em que o filme parece se perder em sua própria pretensão artística, como na cena de uma performance transgressiva que beira o Eurotrash dos anos 1970.


O impacto para os fãs de terror e cinema de arte

‘Ferine’ não é um filme para todos. Ele exige paciência e uma disposição para se envolver em uma narrativa que, por vezes, parece mais interessada em suas próprias referências artísticas do que em contar uma história linear. No entanto, para os fãs de terror psicológico e cinema de arte, a obra é uma adição valiosa ao cânone recente do gênero.

O que os fãs devem esperar:

  • Uma experiência visceral: As cenas de transformação e violência são tão gráficas quanto poéticas, com um foco em detalhes que beiram o grotesco.
  • Personagens complexos: Irina não é uma vilã tradicional — ela é, acima de tudo, uma vítima de suas próprias expectativas e traumas.
  • Uma crítica social afiada: O filme não apenas assusta; ele provoca, questionando as normas sociais que definem o que é
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Fonte original: variety.com

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