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‘Contos de Terramar’: o ‘pior’ Studio Ghibli volta aos cinemas com polêmica renovada

O filme mais controverso do estúdio será relançado nos EUA em agosto, 20 anos após seu lançamento. Miragens de redenção ou apenas nostalgia?

O ‘vilão’ de Ghibli volta — e ninguém sabe se é redenção ou armadilha

Em agosto de 2026, uma das obras mais polarizadoras da história do Studio Ghibli retornará aos cinemas norte-americanos: Tales from Earthsea (Contos de Terramar), o primeiro (e até hoje único) longa-metragem dirigido por Goro Miyazaki. O filme, lançado originalmente em 2006, não é apenas o mais criticado do estúdio — é uma espécie de pária cultural, um experimento que dividiu fãs e críticos por duas décadas. Agora, comemorando 20 anos, ele ganha nova chance: será exibido nos dias 8 e 10 de agosto em cinemas selecionados dos EUA e Canadá, além de permanecer disponível na HBO Max.

Para os não iniciados, a pergunta inevitável é: por que um Studio Ghibli — sinônimo de perfeição técnica, narrativa poética e magia visual — lançaria um filme tão controverso? A resposta está em uma combinação de ambição excessiva, expectativas impossíveis e o peso de ser filho de Hayao Miyazaki.

A aposta arriscada: adaptar Le Guin com um diretor estreante

Tales from Earthsea não é um mero filme ruim — é uma obra intrigante. Adaptado de uma série de romances de Ursula K. Le Guin (considerada um dos pilares da fantasia moderna), o longa mescla elementos de As Geleiras da Escuridão (The Farthest Shore) e Tehanu, dois livros separados da saga Earthsea. A trama acompanha Arren, um príncipe perdido em uma crise existencial, e Sparrowhawk, um feiticeiro que busca restaurar o equilíbrio no mundo.

O problema não era a qualidade técnica, mas a narrativa: Goro Miyazaki, então com 33 anos e sem experiência em direção de longas, foi escalado após anos como assistente de produção e consultor. Hayao Miyazaki, segundo relatos, teria hesitado antes de permitir que o filho assumisse o projeto sozinho, mas acabou cedendo. O resultado? Um filme que oscila entre a grandiosidade visual e a confusão temática, com ritmo irregular e desenvolvimento de personagens truncado.

Por que isso importa

*"Foi feito com honestidade, então foi bom."* > — Hayao Miyazaki, em depoimento durante o lançamento de *Tales from Earthsea* (2006)

Essa frase, transmitida por Goro em um blog pessoal em julho de 2006, resume o paradoxo do filme: ele não é um fracasso artístico, mas um fracasso comercial e crítico. Para o Studio Ghibli, que construiu sua reputação com obras-primas como A Viagem de Chihiro, Princesa Mononoke e O Castelo Animado, Tales from Earthsea representou um risco calculado — e um erro de cálculo.

A importância do relançamento não está em canonizar o filme como obra-prima, mas em reavaliar seu legado. Em 2006, a crítica o chamou de "desastre". Em 2026, muitos o veem como um filme de transição, um passo necessário para Goro encontrar sua voz. A pergunta que fica: será que o tempo mudou a percepção o suficiente para que ele seja visto como um experimento válido — ou apenas mais um lembrete de que até gênios erram?

Do estigma à redescoberta: como o tempo reescreve reputações

Nos últimos anos, Tales from Earthsea ganhou novos fãs graças ao streaming, especialmente na HBO Max. Jovens espectadores, sem o peso das expectativas de 2006, assistem ao filme sem a pressão de compará-lo a O Castelo Andante ou A Princesa Mononoke. E, para muitos, ele não é o "pior Ghibli", mas um trabalho ambicioso e visualmente deslumbrante, mesmo que narrativamente falho.

A trilha sonora de Joe Hisaishi — parceiro de longa data do Studio Ghibli — é um dos pontos altos. As melodias orquestrais, os temas de piano suave e os coros épicos elevam cenas que, de outra forma, poderiam soar vazias. Os cenários pintados à mão, assinatura do estúdio, são de tirar o fôlego, com uma paleta de cores que lembra o mar revolto e os céus tempestuosos de Earthsea.

No entanto, a história continua a ser o calcanhar de aquiles. A compressão de dois livros em um único filme resultou em um roteiro que avança rápido demais, deixando personagens como Tenar e Cob (personagens centrais em Tehanu) em segundo plano. A filosofia por trás da saga — sobre o equilíbrio entre vida, morte e natureza — é mencionada, mas nunca explorada a fundo.

Goro Miyazaki: o fardo de ser o filho de Hayao

Goro Miyazaki nunca pediu para ser o diretor de Tales from Earthsea. Na verdade, ele foi escalado após anos trabalhando nos bastidores, como assistente de direção em O Castelo Animado e consultor em projetos do estúdio. Mas, uma vez no comando, o peso da herança paterna tornou-se inevitável.

Hayao Miyazaki, conhecido por seu perfeccionismo, teria tido reservas sobre o projeto. Ainda assim, após o lançamento, o mestre teria dito a Goro: "Foi feito com honestidade, então foi bom". Essa frase, embora simples, carrega uma carga emocional imensa. Ela reconhece o esforço de Goro sem esconder as falhas do resultado.

Nos anos seguintes, Goro dirigiria Ponyo (2008), um sucesso retumbante, e From Up on Poppy Hill (2011), um filme mais maduro. Mas Tales from Earthsea permaneceu como um fantasma — até hoje.

O legado de um ‘fracasso’: por que Tales from Earthsea ainda é relevante

Em uma filmografia que inclui A Lenda do Vento que Vem, O Castelo no Céu e Meu Amigo Totoro, Tales from Earthsea é, de fato, o elo mais fraco. Mas sua relevância não está em sua qualidade, e sim no que ele representa: o lado humano do Studio Ghibli.

Estúdios de animação raramente admitem erros. Mas Tales from Earthsea é um lembrete de que até os gênios cometem erros — e que esses erros podem ser tão interessantes quanto as obras-primas. Para os fãs, o relançamento é uma oportunidade de ver o filme em tela grande, onde sua escala visual pode ser melhor apreciada. Para os curiosos, é um convite para entender por que, mesmo os maiores, às vezes tropeçam.

O que vem por aí: o que os fãs devem acompanhar além do relançamento

Enquanto Tales from Earthsea ganha nova vida, o Studio Ghibli continua ativo. Em 2026, o estúdio prepara o lançamento de Kimitachi wa Dō Ikiru ka (Como Você Vive?), o novo filme de Hayao Miyazaki (sim, o mestre retornou após anos de aposentadoria). Além disso, a HBO Max mantém uma extensa biblioteca de obras do estúdio, incluindo raridades como Ocean Waves e A Viagem de Chihiro em 4K.

Para quem quer explorar mais, aqui estão três obras essenciais para entender o contexto de Tales from Earthsea:

  • ‘Princesa Mononoke’ (1997): Um marco na carreira de Hayao Miyazaki, onde temas ecológicos e morais são tratados com profundidade — algo que Earthsea tentou, mas não alcançou.
  • ‘Ponyo’ (2008): A redenção de Goro Miyazaki como diretor, um filme visualmente deslumbrante e narrativamente acessível.
  • ‘O Castelo Andante’ (2004): A obra que precedeu Tales from Earthsea e estabeleceu novos patamares para a animação japonesa.

Conclusão: um filme para discordar — e isso é bom

Tales from Earthsea não será redimido em 2026. Ele continuará sendo o ‘pior’ Studio Ghibli para muitos — e, para outros, um projeto ousado que valeu a pena. Mas sua volta aos cinemas é mais do que nostalgia: é um lembrete de que a arte não precisa ser perfeita para ser valiosa.

O Studio Ghibli sobreviveu a seus erros. E, 20 anos depois, Tales from Earthsea ainda tem algo a ensinar: que até os maiores mitos começam com um passo em falso.


Onde assistir? - Cinemas: 8 e 10 de agosto de 2026 (exibições especiais nos EUA e Canadá). - Streaming: Disponível na HBO Max.

Ficha técnica: - Título original: Gedo Senki (ゲド戦記) - Direção: Goro Miyazaki - Roteiro: Goro Miyazaki (baseado nos romances de Ursula K. Le Guin) - Música: Joe Hisaishi - Estúdio: Studio Ghibli - Lançamento original: 29 de julho de 2006 (Japão) / agosto de 2026 (relançamento internacional).

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Fonte original: www.polygon.com

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