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‘Beloved’: Erik Poppe adapta obra de Jon Fosse e redefine cinema nórdico com drama íntimo e existencial

Erik Poppe estreia ‘Beloved’, adaptação de roteiro do Nobel Jon Fosse no Festival de Haugesund, misturando drama humano e paisagens míticas da Noruega.

Um filme que nasceu de décadas de espera — e agora chega para redefinir o cinema nórdico — imagem relacionada
Um filme que nasceu de décadas de espera — e agora chega para redefinir o cinema nórdico — imagem relacionada
Jon Fosse: do Nobel ao roteiro que nasceu para ser filme — imagem relacionada
Jon Fosse: do Nobel ao roteiro que nasceu para ser filme — imagem relacionada
Erik Poppe: da épica à intimidade — e por que ele precisava desse projeto — imagem relacionada
Erik Poppe: da épica à intimidade — e por que ele precisava desse projeto — imagem relacionada
A Noruega como personagem: quando a paisagem se torna metáfora — imagem relacionada
A Noruega como personagem: quando a paisagem se torna metáfora — imagem relacionada

Um filme que nasceu de décadas de espera — e agora chega para redefinir o cinema nórdico

Um filme que nasceu de décadas de espera — e agora chega para redefinir o cinema nórdico — imagem relacionada
Um filme que nasceu de décadas de espera — e agora chega para redefinir o cinema nórdico — imagem relacionada

Erik Poppe não é um diretor que faz concessões. Desde O Escolha do Rei (2016), que retratou a ocupação nazista na Noruega durante a Segunda Guerra Mundial, até Utøya: 22 de Julho (2018), um mergulho visceral nos atentados terroristas que chocaram o país, sua filmografia é marcada por dramas históricos e políticos de grande escala. Mas em Beloved (Kjærleik, no original), o cineasta norueguês surpreende ao apostar em algo completamente diferente: um drama íntimo, existencial e profundamente humano, baseado em um roteiro escrito há quase vinte anos por ninguém menos que Jon Fosse, vencedor do Nobel de Literatura em 2023.

O filme estreou nesta semana como abertura do Festival de Cinema de Haugesund, um dos mais prestigiados eventos cinematográficos da Escandinávia, e já começa a gerar discussões sobre como a literatura de Fosse pode ser transposta para as telas sem perder sua essência filosófica e poética. Não é apenas mais uma adaptação: é uma obra que nasceu com a ambição de ser cinema, e Poppe assumiu o desafio de torná-la visualmente hipnótica.


Jon Fosse: do Nobel ao roteiro que nasceu para ser filme

Jon Fosse: do Nobel ao roteiro que nasceu para ser filme — imagem relacionada
Jon Fosse: do Nobel ao roteiro que nasceu para ser filme — imagem relacionada

Jon Fosse não é apenas um dos escritores mais aclamados do século XXI — ele é um fenômeno literário que transcendeu fronteiras. Nascido em 1959, o autor norueguês já publicou mais de 40 romances, peças teatrais e poemas, mas foi com sua obra minimalista e repetitiva, que explora a linguagem como forma de sobrevivência emocional, que ele conquistou o mundo. Em 2023, foi agraciado com o Nobel de Literatura, consolidando seu status como um dos autores vivos mais importantes da atualidade.

O que muitos não sabem é que Fosse também escreveu roteiros. E Beloved é um deles. Segundo Poppe, o texto foi criado quase vinte anos atrás, com um objetivo claro: ser filmado. "Ele escreveu isso pensando em cinema", declarou o diretor em entrevista à Variety. "Não é uma adaptação de um romance ou peça teatral. É um roteiro original, feito para a tela."

A trama acompanha Asle, um homem que sente o chamado do mar, e Gerd, sua parceira, que prefere a segurança da vila costeira onde vivem. Juntos, eles têm um filho, mas a relação entre os dois começa a se esgarçar diante das escolhas de Asle, que o afastam cada vez mais de Gerd. Não há ação externa, não há vilões ou reviravoltas dramáticas — apenas a lenta erosão de um relacionamento, filmada em um ritmo contemplativo que lembra os melhores trabalhos de Béla Tarr ou Tsai Ming-liang.

**Por que isso importa** > *Beloved* não é apenas mais um filme sobre relacionamentos à beira do abismo. É a prova de que a literatura de Jon Fosse — com sua prosa repetitiva, seus diálogos quase musicais e sua obsessão pela linguagem como único meio de conexão — pode funcionar como cinema sem perder sua profundidade. Erik Poppe entendeu que, para transmitir a melancolia e a solidão dos personagens, era necessário **criar uma experiência sensorial**, onde o cenário (uma Noruega costeira, enevoada e quase mítica) se tornasse um personagem a mais. A pergunta que fica é: será que o público está pronto para um filme que exige paciência, mas oferece uma recompensa emocional profunda?

Erik Poppe: da épica à intimidade — e por que ele precisava desse projeto

Erik Poppe: da épica à intimidade — e por que ele precisava desse projeto — imagem relacionada
Erik Poppe: da épica à intimidade — e por que ele precisava desse projeto — imagem relacionada

Depois de filmes como Emigrantes (2022), que adaptou a obra de Wilhelm Moberg para contar a história de imigrantes suecos nos EUA, e Quisling: Os Últimos Dias (2024), que abordou a colaboração norueguesa com os nazistas durante a guerra, Poppe parecia fadado a grandes produções históricas. Mas Beloved é um desvio radical desse caminho.

Em entrevista, o diretor confessou que precisava de algo mais humano em um mundo cada vez mais caótico. "Olhando para o mundo como ele é agora, eu precisava me agarrar a alguma coisa que fizesse sentido. Queria explorar o relacionamento entre duas pessoas, e também entre um pai e um filho, porque é uma história do cotidiano que eu consigo entender", afirmou.

A escolha de atores também foi estratégica. Leo Magnus de la Nuez e Kristi-Helene Giæver Engeberg, que interpretam Asle e Gerd, respectivamente, foram submetidos a um rigoroso processo de preparação. Poppe é conhecido por trabalhar com seus atores por oito a doze semanas antes das filmagens, buscando criar uma relação de confiança que permita performances mais autênticas.

"Nos meus filmes, eu insisto em ter esse tempo com eles. Se eu estabeleço uma relação honesta e verdadeira, consigo levá-los muito longe", explicou. E o resultado, segundo relatos de exibições privadas, é uma química entre os personagens que soa quase dolorosamente real.


A Noruega como personagem: quando a paisagem se torna metáfora

A Noruega como personagem: quando a paisagem se torna metáfora — imagem relacionada
A Noruega como personagem: quando a paisagem se torna metáfora — imagem relacionada

Uma das maiores qualidades de Beloved é como Poppe utiliza o cenário para refletir o estado emocional dos personagens. A Noruega costeira, com suas falésias, nevoeiros e mar revolto, não é apenas um pano de fundo — é a quarta personagem do filme.

"Passei muito tempo decidindo onde filmar. É quase uma paisagem mítica, uma parte mítica da Noruega", disse Poppe. A escolha não foi aleatória: as imagens enevoadas e melancólicas refletem a insegurança e o crescente afastamento entre Asle e Gerd. Há uma sensação de isolamento, como se os personagens estivessem presos em um loop de solidão.

"É muito típico de muitos relacionamentos. É tão difícil se comunicar", comentou o diretor. E ele sabe do que fala: foi criado por pais com dinâmicas semelhantes às dos personagens. "Meu pai ficou com minha irmã e eu. A história é sobre a linguagem que eles usavam para se comunicar, que está desaparecendo. É sobre onde eles estão e o que eles desejam."


Um amor que não é doce — e por isso mesmo, necessário

Um amor que não é doce — e por isso mesmo, necessário — imagem relacionada
Um amor que não é doce — e por isso mesmo, necessário — imagem relacionada

O título Beloved (Kjærleik, na língua original) pode sugerir um romance idealizado, mas Poppe deixa claro que o filme está longe disso. "As pessoas ficaram surpresas em nossas primeiras exibições, mas também amaram o fato de não ser uma história de amor convencional", admitiu.

Há uma escuridão por trás da aparente simplicidade da trama. A relação entre Asle e Gerd é frágil, cheia de silêncios e mágoas não ditas, e o mar — que atrai Asle para longe — pode ser lido como uma metáfora para a liberdade, mas também para a fuga. O filho, embora seja um elo entre os dois, também representa a responsabilidade que os impede de se separarem completamente.

"Jon Fosse não segue os caminhos que estamos acostumados. Ele não oferece respostas fáceis", disse Poppe. E é justamente essa ousadia narrativa que torna Beloved um projeto tão fascinante.


O que vem por aí: mais adaptações de Fosse e o futuro do cinema nórdico

O que vem por aí: mais adaptações de Fosse e o futuro do cinema nórdico — imagem relacionada
O que vem por aí: mais adaptações de Fosse e o futuro do cinema nórdico — imagem relacionada

Com o sucesso crescente de Jon Fosse — e a certeza de que seu nome será cada vez mais associado ao cinema de autor contemporâneo — é quase inevitável que mais obras suas sejam adaptadas. Poppe já deixou escapar que outras adaptações de romances de Fosse estão em andamento, e o diretor não deve ser o único a arriscar a transposição de sua obra para as telas.

"Como cineasta, ele abre um espaço entre os diálogos que eu posso preencher. Seu estilo é tão simples quanto profundo. Você se conecta com ele, entende e sente no estômago. Seus romances são curtos, mas quando você lê, é como Dostoievski", comparou Poppe.

Além disso, Beloved chega em um momento crucial para o cinema nórdico, que tem ganhado cada vez mais espaço no cenário internacional. Filmes como Sentimental Value (de Joachim Trier) e O Amor que Resta (de Hlynur Pálmason), ambos indicados ao Prêmio do Conselho Nórdico de Cinema, mostram que há um apetite global por histórias que misturam realismo, filosofia e uma estética única.


Para os fãs: o que acompanhar agora

  1. Primeira exibição internacional: Beloved estreou no Festival de Haugesund (2026), mas ainda não tem data de lançamento nos cinemas ou plataformas. Fique de olho em anúncios da Paradox e SF Production, produtoras do filme.
  1. Próximas adaptações de Fosse: Com o roteiro original de Beloved já validado, é provável que outros diretores se aventurem em adaptar seus romances. Melancholia e Septology são fortes candidatos.
  1. Festivais de outono: O filme pode ser selecionado para Berlinale 2027 ou Festival de Cannes, onde o cinema nórdico costuma brilhar.
  1. Influência no cinema atual: Se Beloved for bem recebido pela crítica, pode inspirar outros cineastas a explorar adaptações de Fosse — um movimento que poderia redefinir o drama existencial no cinema contemporâneo.

Conclusão: um filme que desafia — e recompensa

Beloved não é para quem busca entretenimento fácil. É um filme que exige paciência, mas oferece uma experiência cinematográfica rara: a de mergulhar em uma história onde o silêncio fala tão alto quanto as palavras, e onde a paisagem se torna um espelho das dores humanas.

Erik Poppe conseguiu algo notável: transformar a obra de um dos maiores escritores vivos em um filme que respeita a literatura sem ser escravo dela. E, acima de tudo, ele nos lembra que, em um mundo cada vez mais acelerado, há valor em parar para observar o que realmente importa — mesmo que isso signifique encarar a solidão de frente.

Fãs de cinema autoral, de dramas existenciais e de obras que desafiam as convenções: marquem seus calendários. Beloved pode não ser o filme mais fácil de assistir, mas com certeza é um dos mais necessários.

Fonte original: variety.com

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