AMC Theatres defende fusão Paramount-Warner Bros.: 'O cinema precisa de gigantes para sobreviver'
AMC Theatres, maior rede de cinemas do mundo, apoia a fusão entre Paramount e Warner Bros. Discovery, criticando bloqueios estaduais nos EUA. Entenda por que is
O cinema está de volta — e não pode vacilar agora
Seis anos depois de COVID-19, duas greves históricas na indústria cinematográfica e um mercado global ainda se recuperando, os cinemas nos Estados Unidos e na Europa finalmente viram a luz no fim do túnel. E não é qualquer luz: é o brilho de Super Mario Bros. (Universal/Illumination), Michael (Lionsgate), Backrooms (A24), Project Hail Mary (Amazon/MGM) e, claro, Spider-Man: Brand New Day (Sony), que promete ser o fenômeno do ano. Segundo dados recém-divulgados pela AMC Theatres, a maior rede de cinemas do mundo — dona de mais de 10 mil telas em 15 países —, o segundo trimestre de 2026 registrou o maior faturamento e o maior EBITDA ajustado da história da empresa, em seus 106 anos de existência.
Mas, como adverte o CEO Adam Aron em um polêmico op-ed publicado hoje na Variety, o sucesso atual não é garantia de futuro. Para que a magia do cinema não se apague de vez, um passo fundamental precisa ser dado: a fusão entre Paramount Global e Warner Bros. Discovery deve ser aprovada — e rapidamente. E a AMC, que já negou exibições de filmes quando os termos não eram justos, agora defende publicamente que a união das duas gigantes é a única forma de evitar um colapso na oferta de conteúdos para as telas.
"Graças, mas não, obrigado": a guerra judicial que pode matar a retomada
O problema não é a estratégia da fusão em si — que já foi aprovada em mais de 65 países, incluindo os principais mercados europeus e asiáticos. O empecilho vem de um grupo de Procuradores-Gerais estaduais nos EUA, que ingressou com ações judiciais para bloquear o acordo. Eles argumentam que a união enfraqueceria a concorrência, prejudicando cinemas independentes e até mesmo a AMC.
A resposta de Aron é direta e cortante: "Graças, mas não, obrigado." Em sua visão, a lógica está invertida. A AMC não depende passivamente dos estúdios; ela escolhe o que exibir, negocia prazos de lançamento e splits de receita, e já recusou inúmeros filmes quando os termos não eram favoráveis. Segundo ele, o verdadeiro perigo não é uma fusão, mas justamente a falta dela.
**Por que isso importa** > A fusão Paramount-Warner Bros. Discovery não é apenas uma questão de negócios entre estúdios. É um **teste de sobrevivência para as salas de cinema** em um mundo onde o streaming e as Big Techs dominam o entretenimento. Sem estúdios fortes o suficiente para investir em grandes lançamentos e manter janelas teatrais exclusivas, o cinema corre o risco de se tornar um mero *showroom* para conteúdos que serão consumidos em casa. **Aqui, não há especulação: os dados falam.** Desde 2020, o número de lançamentos teatrais de grandes estúdios caiu drasticamente, e o público — especialmente a **Geração Z, que representa 87% do público cinéfilo atual** — precisa de mais opções nas telas.
O paradoxo do streaming: Hollywood está treinando o público para não ir ao cinema
A ironia é cruel: enquanto os cinemas lutam para se reerguer, Hollywood acelerou seu próprio declínio ao encurtar janelas de lançamento e priorizar plataformas digitais. Filmes como The Odyssey (de Christopher Nolan), que deve superar US$ 1 bilhão de bilheteria, só chegarão ao streaming meses depois do lançamento teatral. Mas nem sempre foi assim.
Antes da pandemia, muitos estúdios já haviam adotado a estratégia de lançar títulos simultaneamente em cinemas e plataformas, ou em prazos cada vez menores. O resultado? O público, especialmente os jovens, foi condicionado a esperar em casa por lançamentos que antes só existiam nas salas escuras. E isso tem um custo invisível: a experiência coletiva do cinema.
Como lembra Aron, "o riso é mais alto, a ação mais intensa e as lágrimas mais rápidas quando se assiste a um filme com outras pessoas". Mas se os estúdios não tiverem escala para produzir e distribuir conteúdos exclusivos para as telas, esse fenômeno cultural pode desaparecer.
Geração Z salva o cinema — mas por quanto tempo?
Os números são animadores: 87% dos jovens entre 18 e 24 anos frequentaram cinemas nos últimos 12 meses, segundo a AMC. Eles não estão substituindo o cinema por TikTok ou YouTube — pelo contrário. Eles estão transformando a ida ao cinema em um evento social, como fizeram as gerações anteriores.
O problema é que, sem um fluxo constante de grandes lançamentos, esse público pode perder o interesse. E aí, o que resta? Filmes menores, lançamentos digitais precoces e salas cada vez mais vazias.
A fusão entre Paramount e Warner Bros. Discovery poderia mudar esse cenário. Juntas, as duas empresas controlariam um portfólio invejável: franquias consagradas (Star Trek, Mission: Impossible, SpongeBob), estúdios de animação de peso (DreamWorks, Cartoon Network) e produtoras independentes. Além disso, a combinação poderia aumentar a pressão competitiva sobre gigantes como Amazon, Netflix e Apple, que também apostam em cinema — mas nem sempre com o mesmo compromisso com as salas.
O que vem por aí: prazos, batalhas judiciais e o futuro das telas
- Setembro de 2026: Data limite para que os reguladores estaduais nos EUA apresentem suas objeções finais à fusão. Se a ação for derrubada, a aprovação federal deve seguir rapidamente.
- Outubro de 2026: A AMC e outras redes devem pressionar os estúdios para manter janelas teatrais de pelo menos 90 dias para lançamentos de peso, garantindo que os cinemas tenham tempo suficiente para lucrar.
- 2027: Se a fusão se concretizar, o primeiro grande teste será a performance de filmes como Avatar 3 (Disney), Joker: Folie à Deux (Warner Bros.) e possíveis spin-offs da Paramount (Mission: Impossible 8?).
O cinema não é um negócio — é uma cultura
Adam Aron não esconde sua paixão pelo cinema. Em seu texto, ele cita Nicole Kidman — que recentemente declarou: "Nós vamos a esse lugar pela magia". E a magia, nos dias de hoje, não é apenas um filme bem feito. É a experiência de estar em uma sala escura, cercado por pessoas que riem, gritam e choram juntas.
Para a AMC, a fusão não é sobre lucro imediato. É sobre garantir que, daqui a dez anos, ainda existam telas gigantes contando histórias épicas. É sobre competir não só com outros estúdios, mas com gigantes da tecnologia que veem o cinema como apenas mais um produto em seus ecossistemas de assinatura.
Afinal, como disse Aron em tom de desafio: "Nós vamos vender mais ingressos para eles do que qualquer outra rede do mundo". Mas para isso, os estúdios precisam estar fortes. E a fusão entre Paramount e Warner Bros. Discovery pode ser o passo certo — ou o último erro de uma indústria que ainda não aprendeu a valorizar suas próprias salas.
O que os fãs devem acompanhar agora
- Até setembro de 2026: Acompanhe as atualizações dos processos judiciais nos EUA. Se a fusão for bloqueada, prepare-se para menos lançamentos de peso e janelas teatrais ainda mais curtas.
- Outubro de 2026: Fique de olho nos anúncios de novos filmes das duas produtoras. Se a fusão avançar, espera-se uma onda de produções ambiciosas para 2027.
- 2027: O grande teste será o desempenho de Avatar 3 e Joker 2. Se esses filmes bombarem nas telas, a prova de que a fusão foi benéfica estará dada.
O cinema está de volta. Mas, como todo herói em uma história de redenção, ele precisa de aliados poderosos para não cair novamente. E, desta vez, a batalha não é contra um vírus ou uma greve — é contra a própria indústria que, sem querer, pode estar acelerando seu desaparecimento.

Fonte original: variety.com